Nossa Crítica
Vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional de 2026, “Valor Sentimental” desbancou o concorrente brasileiro “O Agente Secreto” na corrida pela estatueta. Apesar de apreciar mais o filme brasileiro e considerá-lo uma obra mais criativa e complexa, “Valor Sentimental” tem seus méritos e se mostra um ótimo filme dentro de suas pretensões. A metalinguagem e a homenagem à própria arte cinematográfica além de serem concebidas de forma perspicaz, tornando o filme uma obra elogiável por si só, acabaram por garantir o primeiro Oscar para o diretor norueguês Joachim Trier.
Na trama, acompanhamos a relação conturbada de uma família de artistas e a profunda ligação com a velha casa em que moravam, onde memórias ressurgem para nos ajudar a entender a difícil convivência no presente. O pai, Gustav Borg, um renomado diretor de cinema — há algum tempo no ostracismo —, concebe um roteiro extremamente pessoal e convida sua filha mais velha, com quem mantém uma conturbada relação, para ser a protagonista da obra. Com a recusa da filha, que guarda um grande rancor pelo abandono do pai após o divórcio com sua mãe, Gustav acaba cedendo aos novos modelos produtivos do cinema e convida uma jovem atriz que está em destaque em grandes produções recentes para o papel. Enquanto isso, Nora, a filha mais velha, continua sua carreira no teatro enquanto tenta amenizar suas grandes angústias de viver uma vida solitária. Mesmo todos tentando manter esse aparente isolamento, suas dores e memórias se misturam e, nessa jornada, pai e filha acabam percebendo que têm mais em comum do que imaginam.
Mesmo tendo uma trama relativamente batida e uma problemática que poderia ser resolvida na terapia ou com uma simples conversa entre seus personagens, a história acaba nos cativando pela forma como a direção conduz o desenvolvimento da obra. É notável que os problemas familiares são mais causados por ego e arrogância e muito distantes de abordar questões sociais urgentes — são problemas de gente rica —, mas a metalinguagem e a atuação excepcional dos três personagens centrais acabam nos imergindo naquele universo emocional restrito da família e logo estamos nos sentindo totalmente conectados àquelas angústias pessoais. A análise psicológica de seus personagens e o desenvolvimento sutil de cada relação ganham muito com o filme reservando um tempo digno para cada um e empenhando esforços para não vitimizar ou enaltecer completamente ninguém.
É aqui que eu abro uma comparação para comentar um pouco a vitória deste filme sobre “O Agente Secreto”. Hollywood e a Academia adoram filmes que tratam do cinema e do ato de criação cinematográfica e por isso essa obra aqui já largou na frente. Além disso, a abordagem socialmente contundente e o contexto exterior — com o filme totalmente falado em português enquanto “Valor Sentimental” ainda utiliza o inglês em boa parte do longa — acabam por afastar ainda mais um público que não esteja afim de mergulhar de cabeça numa obra mais caótica e extravagante como é o filme brasileiro. Não posso mentir também que, assim como a Academia, eu também gosto bastante de filmes que trazem essa metalinguagem com o fazer fílmico e isso foi, sem dúvidas, algo que me tocou bastante em “Valor Sentimental”. Muitas cenas trazem essa brincadeira com o fato de estarmos acompanhando um filme se desenvolver dentro de outro filme, além de referências a clássicos do cinema mundial e à própria indústria cinematográfica. Como já mencionei, acho que o filme de Kleber Mendonça Filho é uma obra muito mais ousada, socialmente relevante e extremamente cativante, tendo me garantido uma experiência superior, mas assim que terminei “Valor Sentimental” presumi que uma vitória do filme brasileiro seria extremamente improvável, justamente pelos pontos que levantei aqui.
Voltando para o filme em questão, a obra norueguesa dispõe de uma condução sutil, porém bastante consciente de seu diretor, com pausas e quebras certeiras de tom durante o desenvolvimento para nos proporcionar impactos necessários durante o longa. Além disso, na forma como o relacionamento entre pai e filha vai se desenvolvendo, acabamos por perceber a similaridade entre suas personalidades e o filme se utiliza muito bem de memórias e de uma narração off para valorizar ainda mais isso. Para deixar tudo ainda mais óbvio, há ainda uma referência ao clássico filme “Persona”, de Ingmar Bergman, que surge como uma comprobação do que já poderíamos deduzir durante a trama. É um recurso quase que apelativo, mas que, servindo como referência a este clássico, não chega a ser inútil numa obra que aborda tanto o cinema.
Outras áreas em que o filme acerta bastante são sua fotografia e direção sonora. Por um lado, a fotografia enaltece principalmente as sequências de memórias, com uma granulação da imagem proveniente de uma estética da película, trazendo o passado como um momento a parte da narrativa e fazendo essa divisão sutil e muito elegante na trama. Por outro lado, o som conduz nossa experiência de forma mais truculenta, com uma trilha sonora que brinca com as pausas do filme e traz choques mais abruptos em certos pontos do longa. Da mesma forma, a condução do filme em todos os departamentos técnicos se mostra bastante correta e coerente no que se propõe.
Já no que diz respeito às atuações, a obra ganha um grande destaque pela desenvoltura de todos os seus protagonistas. Tanto o pai, quanto às filhas e até mesmo a atriz estrangeira que ganha destaque na história acabam desenvolvendo à altura seus personagens e conseguem espaço para demonstrar as minúcias de suas personalidades com muita presença em cena. Gosto muito como a irmã mais nova que poderia ser menos explorada como personagem central da trama também ganha sua própria escala de desenvolvimento e se mostra importante na evolução das relações com os demais entes da família.
Para finalizar, ainda sobre a metalinguagem, além de todo o desenrolar certeiro que a trama ganha desde o roteiro até a condução do filme, algo que me tocou muito foram as etapas de construção que a obra expõe ao longo da narrativa, desde o cinema como uma simples brincadeira até as modernas relações da indústria cinematográfica atual. Em vários momentos a obra me fez lembrar do ato de criação que tive em alguns projetos pessoais e isso me proporcionou uma conexão ainda mais profunda com aqueles personagens em tela. Toda essa angústia criativa, as relações familiares complexas e a falta de controle sobre a própria criação mostra um lado desgastante da criação artística que esconde circunstâncias conturbadas nas vidas de seus realizadores, mas que também nos mostra como a arte pode acabar por ser também o motor de união e escape para os momentos difíceis do ser humano, mesmo que uma terapia não deva jamais ser subestimada em certos momentos, como o filme brinca.
Enfim, uma obra muito agradável, que não se arrisca tanto, mas competente o suficiente para nos cativar durante toda sua duração e nos proporcionar uma experiência profunda e quiçá até emocionante, principalmente para os amantes mais assíduos do cinema e seus artistas realizadores.
Comentários da Comunidade
Carregando comentários...

