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Persona

Persona

1966 1h 25min Ingmar Bergman 0
3
AVALIAÇÃO
Publicado em 15 de abr de 2024 às 20:00

Nossa Crítica

“Persona” é o segundo filme de Ingmar Bergman que eu assisto e minha nossa! Que diferença do seu outro longa que assisti. Se “O Sétimo Selo” utiliza uma estrutura mais convencional e consegue transmitir as influências de Bergman de maneira mais alegórica e figurativa, aqui o diretor sueco opta por uma pegada muito mais experimental e transforma a experiência cinematográfica em um estudo completo de personagem. O filme foi, para mim, uma árdua experiência, tanto da primeira, quanto nessa segunda vez que o assisto. Optei por reassistir porque não me vi preparado para analisar o filme depois da minha primeira experiência com a obra. Agora, após assisti-lo novamente, me vejo na mesma condição de antes. Entretanto, acredito que algumas coisas que me intrigaram e me marcaram eu posso expor aqui de alguma forma, até mesmo como forma de reorganizar os meus pensamentos a respeito do filme.

Partindo rapidamente para a trama, acompanhamos Elisabet, uma atriz que, após seu último papel, resolveu entrar numa greve de fala e desde então se mantém calada. Para tratar da paciente a enfermeira Alma é escolhida e juntas as duas vão para uma casa de verão da médica responsável por Elisabet, que cede a casa para que o tratamento seja mais efetivo. No ambiente novo e mais afastado da cidade, Alma e Elisabet desenvolvem uma forte relação de afeição e aversão mútua. Nessa dualidade paradoxal, conhecemos as verdadeiras faces de cada uma delas – ou não.

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Para começar, essa pequena introdução muito pouco tem a dizer sobre o que realmente o filme se trata. A premissa não tem muito conteúdo por si só pois a narrativa gira em torno dos diálogos e das situações que as duas protagonistas atravessam juntas. Fugindo de uma narrativa clássica onde todo o conteúdo nos é dado de bandeja, esse aqui é aquele tipo de filme que você é encarregado de dar o seu próprio sentido à trama. Graças a sua profundidade poética e psicológica, a experiência pode ser bem diferente dependendo de como você lida com a obra. E isso eu digo por experiência própria. Antes de continuarmos, um conhecimento útil que posso deixar aqui é sobre o título do filme. “Persona” tanto se relaciona com as origens teatrais de Bergman, sendo o nome usado para designar as máscaras dos antigos teatros gregos, quanto diz respeito ao conceito psicológico de persona como uma visão que nós temos de nós mesmos em relação a como as outras pessoas nos enxergam. Isso tudo tem muito a ver com o filme em questão. Sem mais delongas, vamos mergulhar de cabeça no que de fato eu achei dessa obra.

Gostaria aqui de deixar bem claro que com esse texto não vou nem arranhar a profundidade discutida nas entrelinhas desse filme, mas vou me ater aqui apenas a transmitir a minha interpretação do longa. Um ponto que me chamou muita atenção na minha assistida foi a sua curta duração. São menos de 90 minutos, mas que parecem se alongar por uma eternidade devido à complexidade da trama e à quantidade de diálogos profundos. Outra questão que me tocou bastante aqui foi a característica onírica do filme, se comunicando bastante com a estética surrealista. São passagens que se repetem, que não seguem uma sequência temporal lógica, que dão um ar de imprecisão quanto ao quão real aquilo é ou não diegeticamente e muito mais. Além de tudo isso, o filme ainda se mostra a todo momento como um filme, quebrando totalmente a estética da montagem invisível, apresentando efeitos de película queimada, corrompida e até passagens de diversas outras obras introduzidas sem nenhuma apresentação prévia.

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Ainda em relação à obra como forma de comunicação direta com o espectador, sem barreiras narrativas, o longa apresenta passagens em que parece que é o próprio filme que está falando conosco e não um de seus personagens diegeticamente. São textos impactantes que parecem dialogar conosco do outro lado da tela e pouco acrescentam de fato ao contexto em que os personagens discutem em cena. Discussões essas que acompanhamos se desenrolar sobre os mais diversos assuntos. A característica peculiar de apenas uma protagonista verborrágica acrescenta algumas camadas de interpretação que discutirei logo abaixo. O que torna a obra ainda mais tocante é a concisão dos diálogos que surgem por parte de uma única locutora. Alma assume todo o papel de comunicadora na trama, o que nem de longe exige menos de Elisabet como seu contraponto à altura.

Com o decorrer da convivência, depois de uma fase mais cordial onde Alma e Elisabet vivem um certo grau de amizade, os anseios, aspirações, mágoas e angústias – que são muitos – de ambas as personagens vêm à tona, transformando completamente a relação entre as duas mulheres. Bergman sempre foi lembrado pela sua forma de retratar personagens femininas em suas obras e acho que aqui é onde isso fica mais evidente. A maneira como as aflições femininas são expostas de forma audaciosa pelo roteiro faz tudo soar natural, mesmo que envoltos numa fórmula totalmente experimental e disruptiva. Acompanhamos assim as duas personagens entrando em uma espécie de colapso mental e o que antes parecia apenas uma escolha por parte de Elisabet começa a afetar não somente ela, mas também sua companheira Alma.

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Os anseios e pensamentos de Elizabeth vão sendo expurgados, exprimidos e expostos através dos lábios de Alma, que acabou absorvendo a personalidade de sua paciente, numa dinâmica que só me fez associá-la a uma espécie de antropofagia. Nessa dinâmica de dupla personalidade de ambas, o que fica de questionamento para nós é o que realmente cada uma tem a nos dizer, mesmo que só uma delas fale. Os questionamentos que antes estavam só na trama começam a transbordar para fora do filme, deixando a gente sufocado por tantas formas de interpretação possíveis para a situação. Permeado por tudo isso está uma condução que introduz planos contemplativos e disruptivos numa mesma frequência e , no meio disso tudo, acho que a minha concepção do filme só mudou quando eu decidi abandonar a minha perspectiva de filme e adotar uma visão da obra como experiência. Foi aí que eu percebi que o longa não buscava nos transmitir seu conteúdo através somente da narrativa, mas de todas as formas e meios que ele tinha acesso, seja pela montagem, fotografia, som, simbolismos ou detalhes das construções dos cenários.

Como citei alguns quesitos técnicos, não posso acabar esse texto sem exaltar o quanto os enquadramentos são incríveis e a fotografia em preto e branco é bem utilizada graças, principalmente a um trabalho de iluminação perspicaz. A utilização do som na obra também é bem importante, sendo uma das ferramentas para quebrar as sequências lógicas de imagens e interromper o fluxo, teoricamente convencional, da narrativa.

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Enfim, esse é um filme difícil e que depois de revê-lo continua do mesmo jeito da primeira vez. Ao menos, com esse segundo contato consegui encontrar a melhor forma, pelo menos para mim, de experienciar essa obra, tratando-a como uma experiência em si e não somente como um filme. Algo parecido me aconteceu com “A Viagem de Chihiro”, mas naquele caso foi no sentido de não tentar encontrar respostas para tudo e deixar que o próprio filme se provasse por si mesmo. Em ambos os casos essa concessão de liberdade poética surtiu um efeito positivo na minha visão com as obras e espero que algo desse texto possa ampliar a visão de como um filme pode ter muito mais conteúdo dependendo da forma como você olhe para ele.

Assista esse vídeo que fala sobre a vida e obra do diretor Ingmar Bergman

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Nota
3

Gabriel Santana

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