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Refém por um Fio

Refém por um Fio

2025 1h 44min Gus Van Sant 0
3,5
AVALIAÇÃO
Publicado em 23 de ago de 2026 às 23:10

Nossa Crítica

Esse é o primeiro filme do diretor Gus Van Sant que eu tenho acesso e ele está na peculiar lista dos filmes que eu não pretendia assistir. De qualquer forma, agora que tive a oportunidade de apreciar essa obra, posso dizer que ela me trouxe surpresas positivas e me garantiu uma boa experiência, no final das contas.

A trama narra uma história baseada em um caso real em que um homem sequestrou o presidente de uma grande empresa financeira e o manteve em cativeiro em seu apartamento. De lá, esse sujeito de personalidade peculiar mantém um contato com o mundo exterior apenas para definir os acordos da negociação de liberdade do refém. Dois pontos principais chamam a atenção nesse sequestro. O primeiro é o modo como ele foi concebido, com o sequestrador prendendo um fio preso a uma espingarda no pescoço do refém. E o segundo é que após sua história ser revelada pela imprensa, a população começou a se identificar mais com o sequestrador do que com a vítima e perceber — assim como nós — que talvez aqueles papéis estivessem invertidos, de certa forma.

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O filme começa com uma montagem dinâmica e muito bem direta, coisa que se repete em muitas oportunidades. Isso faz com que a história caminhe a passos largos e nos conduza direto ao ponto central que já podemos esperar desde o início. Aliado a isso, temos uma ótima construção de personagens, principalmente por parte do protagonista da obra, que demonstra toda uma instabilidade que traz uma potencialidade enorme para o desenvolvimento da narrativa.

Em relação aos aspectos técnicos, acredito que tudo funcione muito bem aqui, sem ressalvas. A trilha sonora ocupa bem seu papel e é bem intrusiva nos momentos mais frenéticos, quando o filme pede um acompanhamento para aquele frenesi, mas também sabe muito bem deixar o silêncio e os diálogos se destacarem quando se pede. A fotografia é coerente e traz inserts de fotografias e filmagens que emulam as captações da época em que a história se passa, dando alguns toques para o espectador de que aquela história não é tão absurda que não pudesse ter realmente acontecido. De todo modo, é na direção e montagem que o filme se sustenta mais e tem seus maiores méritos — além de um roteiro inteligente o suficiente para não ficar enfadonho.

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O filme traz uma bela discussão sobre a nossa sociedade e como certas regras e leis, por mais que não pensemos muito a respeito, são bastante injustas, alicerçando um sistema cruel que nos mantém inertes em um ciclo vicioso desumano. Alguns dias atrás me peguei assistindo um vídeo que tocava nesse assunto. Teoricamente não estava contra as leis da Alemanha o que os nazistas fizeram em seu governo. Mesmo assim, são inegáveis os crimes contra a humanidade que eles cometeram. De uma forma mais sutil, o sistema capitalista também tem mecanismos desumanos para com a sociedade, que muitas vezes estão escondidos em burocracias e detalhes difíceis de condenar, mas eles estão lá para fazer essa máquina girar. Assim, o longa nos coloca de frente para um ser curioso que ganha nossa atenção por sua decisão extrema, mas nos mostra um problema muito mais cruel do que o ato que ele está cometendo.

A direção é hábil em nos contar aquela história de uma forma que sempre nos mantemos cautelosos em nos afeiçoar por alguém, nos perguntando o tempo inteiro o que de fato é correto àquela altura. De todo modo, conhecemos aquelas pessoas e vamos entendendo todos esses pontos até enfim percebermos que estamos nos identificando mais com o criminoso do que com a vítima — assim como boa parte da população que acompanha o caso com o sensacionalismo da mídia à época. Esse é também outro fato que o filme traz com sutileza, mas que ainda assim se mostra bem presente na obra.

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É um filme que consegue extrair muito de relativamente pouca coisa acontecendo em si. Os diálogos são simples mas carregam bem mais do que parece. A partir deles nós vamos conhecendo aqueles seres e nos identificando no nosso mundo. No final de tudo, a única insanidade que eu pude identificar no protagonista foi a sua ingenuidade de ainda acreditar numa possível conquista depois de tudo aquilo, pois de fato conseguimos entendê-lo muito bem e suas motivações acabam ficando bem claras. É interessante perceber que o filme sabe balançar muito bem para o lado da melancolia e acaba até trazendo um ar curioso de deleite ao seu fim, quando entendemos o desfecho daquela trama e assumimos de vez um lado naquilo tudo.

Acho que esse é um filme no mínimo interessante que sabe trabalhar com suas entrelinhas e nos traz uma história que diz mais sobre o mundo que vivemos do que a primeiro momento somos capazes de inferir. Foi uma grata surpresa e uma experiência curiosa, proporcionada por uma condução perspicaz e uma conjunção de atributos excelentes, numa obra muito bem ciente das suas potencialidades e pretensões.

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Nota
3,5

Gabriel Santana

Cena final

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