Nossa Crítica
“Pra Frente Brasil” é um filme até que bem corajoso que expõe uma dura realidade nacional de uma maneira bem direta. De certa maneira é uma espécie de “Ainda Estou Aqui” da velha guarda, mas com bem menos sugestivo e mais visceral do que o seu representante nacional mais recente. Assim, como o vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional de 2025, “Pra Frente Brasil” conta a história de uma família devastada pelos horrores da ditadura, mesmo que à primeira vista todos quisessem se manter isentos da política.
Por uma ocasião do destino, Jofre, um empresário carioca, acaba no mesmo táxi que leva um homem perseguido pela ditadura. Confundido com um militante comunista após os demais passageiros do táxi serem executados, Jofre é detido e submetido à tortura para contar tudo o que ele (não) sabe sobre os subversivos. Depois do sumiço do marido, sua esposa Marta inicia junto com Miguel, irmão de Jofre, uma tentativa de investigação particular para tentar entender em que seu marido está metido. Assim, os dois acabam descobrindo uma realidade óbvia, mas que parecia escondida na neutralidade política da família. Em meio a tudo isso, a população brasileira está eufórica com a participação do Brasil no que viria a se tornar a sua 3ª conquista mundial na Copa do Mundo de 1970.
Apesar de o filme não surtir um efeito tão profundo em mim devido principalmente a uma linguagem um pouco mais antiquada, julgo eu, a sua mensagem pode ser ainda muito bem entendida. O modo como a narrativa é levada ainda sim guarda uma certa curiosidade, pois é difícil definir quando o filme entra no seu ato final. A partir do momento em que entendemos a problemática que vai carregar a trama, o contexto e os seus personagens, a clima de tensão começa a crescer e não baixa até o desenrolar final da trama, numa crescente realmente interessante. Mesmo que minha imersão tenha sido baixa, de forma alguma o filme chegou a me cansar ou se mostrou desinteressante. De qualquer forma fica o aviso que para uma assistida despretensiosa, pode ser que essa obra não seja tão engajante.
Talvez até pela proximidade temporal da produção, o filme ainda mostra-se um pouco isento de responsabilizar diretamente o estado pelos horrores da tortura e da repressão, mas sugere muito bem a política do “pão e circo” na maneira como a sociedade está ludibriada pelo espetáculo do futebol e não consegue enxergar os problemas ao seu redor e bem mais próximos do seu dia a dia. É interessante o paralelo que a direção e a montagem fazem com imagens históricas da Copa do Mundo de futebol que mostram saudosos lances de Pelé, Rivelino e companhia representando o país, contrastados com uma realidade tenebrosa em território brasileiro.
Numa tentativa de estabelecer uma dinâmica de povo contra povo, a violência e a crueldade do estado passam para o encargo de grupos extremistas de repressão — que nada mais eram do que braços clandestinos do estado — mas isso não limita o filme a expor características bem claras da ditadura militar do Brasil. A influência americana no regime brasileiro, a luta armada, as torturas e perseguições de opositores políticos e até mesmo o cerceamento da liberdade de expressão através da censura. Tudo fica muito bem exposto, mesmo que essa pareça ser uma realidade distante para a classe social dos personagens que acompanhamos.
É por isso que esse filme se assemelhou bastante a “Ainda Estou Aqui”. Claro que é preciso dar as devidas proporções a ambos e reconheço que a profundidade dramática do filme mais recente é muito melhor desenvolvida, mas o filme da década de 80 também consegue trazer imagens marcantes e até mesmo chocantes, coisa que a obra mais recente resolveu apenas sugerir. De uma maneira ou de outra, ambas as obras surtem efeito e conseguem transmitir uma mensagem sóbria sobre um período terrível da história brasileira.
A mensagem mais clara que o filme tenta transmitir é que em um estado de exceção, não importa o quão isento e neutro você tente ou demonstre ser, seus direitos e liberdades também vão ser cerceadas e sua vida ainda vai estar bem menos garantida do que numa sociedade democrática, por maiores que os problemas dessa última possam ser. Por essa razão, acredito que esse filme ainda mereça uma revisita, pelo menos de uma perspectiva histórica e social, pois apesar de como uma obra artística não trazer nada excepcional ou tecnicamente engajante, consegue trazer uma metáfora social muito interessante e nos faz refletir sobre nossa identidade nacional e nossa história como país.
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