Nossa Crítica
Filme brasileiro de 1980, Pixote é uma obra impactante e que nos conta muito sobre uma sociedade que espera colher paz como fruto da violência. Contradição essa que o filme expõe junto à diversas outras que denotam o desequilíbrio de um Brasil autoritário, durante uma ditadura militar. A obra, que não se envergonha de mostrar a podridão do sistema, apresenta assim uma realidade dura e crua da população infantojuvenil brasileira marginalizada, que infelizmente ainda se mostra bastante atual e chocante, mas não totalmente inimaginável nos dias de hoje.
Acompanhamos um grupo de crianças e adolescentes de um reformatório do governo no início da década de 80 em São Paulo. Lá todos são cuidados — ou descuidados — como rebanho e tratados indiscriminadamente independente da idade, comportamento ou necessidades individuais. Além do clima pesado já de praxe, uma acusação de assassinato recai sobre algum dos adolescentes recém-chegados da instituição, levando a polícia a agir com a truculência esperada para uma ditadura, utilizando de ameaça e tortura para com abrigados no local. O clima chega ao extremo com uma sequência de assassinatos premeditados. Quando Pixote, um garotinho interno que acabara de chegar, presencia tais atrocidades, ele e seu grupo decidem fugir e tentar ganhar a vida nas ruas da grande cidade de São Paulo, onde a realidade não se mostra nem um pouco mais fácil para eles.
Aos poucos a obra vai nos ambientando em um momento doloroso da história brasileira. São detalhes que vão sendo deixados às vezes sutilmente, às vezes explicitamente. A violência, por exemplo, permeia toda a narrativa e é primordialmente resultado de um regime militar que se atingia todas as camadas sociais, principalmente as marginalizadas. No caso dos adolescentes e crianças que acompanhamos, choca a forma como todos estão no mesmo barco, condenados juntos a afundar, seja na delinquência, seja na opressão do sistema.
Esse é um filme bastante pessimista, mas que em certos momentos curiosamente me fez rir, em grande parte pelo protagonismo dos pequenos que acompanhamos. Como são crianças, muito da realidade dura da vida é encarada com leveza pelos seus olhos. Mesmo assim, o filme não nos deixa enganar por muito tempo, com a narrativa nos transportando o tempo todo para a triste realidade com solavancos agressivos e dolorosos. Se eles estão enclausurados, mas ao menos tem uns aos outros, logo essa segurança não se mostra suficiente para protegê-los. Se eles finalmente conseguem fugir, a realidade no mundo lá fora não parece em nada mais fácil. Se parecem formar um núcleo familiar precário, as intrigas geradas pela falta de convivência tranquila acabam sabotando a mínima segurança que tinham na união. Todo mínimo progresso se desfaz na humanidade transgredida daquelas pessoas.
A obra não choca somente pela violência. O filme é chocante por nos transportar para uma sociedade perturbadoramente incoerente. Teoricamente prezam pelos valores da família, os bons costumes e todo um discurso que ainda teima em existir na atualidade, mas dispõem de uma vida cheia de privilégios e corrupções que fazem dos demais seus subalternos e explorados. O impacto vem também de uma narrativa cruel, mas nunca inverossímil. Concluir que ainda existem pessoas em situação similar ainda hoje mexe ainda mais com nossos sentimentos. Mesmo abordando muito bem um contexto social de ditadura, a mensagem do filme permeia as gerações e expõe um descaso ainda marcante na sociedade brasileira.
Gosto como o filme também trata outros temas sociais de forma bem sensata. Questões de identidade, sexualidade e companheirismo são abordados sem grande destaque, mas também sem nenhum pudor, algo a se exaltar dado o ano de realização do longa. Tudo isso é carregado por atuações em grande parte bem conduzidas por todos os personagens, que nos proporcionam cenas memoráveis — muitas vezes não por um sentimento agradável. Cenas essas que atuam a serviço do filme para construir um loop desgastante de amargura e sofrimento.
Após o final da experiência nada técnico se sobressai da obra, mesmo que estejam todas as áreas bem conduzidas e a serviço da narrativa. O longa nos deixa tão impactados com a trama que o restante se perde de forma inconsciente. Pensando um pouco a respeito do filme, acredito que, ao fim, o que mais nos deprime são, ironicamente, os momentos felizes daquelas crianças. São tão singelos e passageiros que simples experiências da vida são negadas e os sonhos mais banais são trocados por um instinto animalesco de sobrevivência e subsistência. A humanidade é arrancada de suas vidas e a sociedade, que deveria educar — ou reeducar — nada tem para contribuir para com eles.
Esse é um filme forte e desgostoso, mas que cumpre seu papel justamente por isso: tocar em feridas abertas e lembrar que a vida não abre portas justas para todos. É um filme que nos ensina muito através da violência a enxergar que a desigualdade é um grave problema que não só é negligenciado pelo estado, como também muitas vezes é produzido por ele.
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