Nossa Crítica
Clássico do cinema mundial, “O Poderoso Chefão” estava na minha lista de obrigações há muito tempo e, para retomar de mais um hiato criativo meu, decidi finalmente apreciar essa obra. Com muito gosto confirmo se tratar realmente de um clássico que merece suas honrarias e louvores, pois ainda permanece sendo uma obra extremamente potente e marcante, mesmo para mim que havia sido pouco ou nada impactado pelo filme ao longo da minha vida.
Em uma festa de casamento requintada, somos apresentados à protagonista dessa trama, a família Corleone. Não demora muito para conhecermos o chefão da família, Don Vito Corleone, ou melhor, o Padrinho. Sua influência como um dos maiores líderes da máfia italiana em Nova York é logo exposta através da quantidade de requisições feitas a ele mesmo num dia tão festivo para a família. A sua extensa lista de contatos e favores prestados acaba tornando sua vida conturbada quando ele nega um acordo com uma outra influente família da região. A partir daí o protagonismo do filme passa de mão em mão — ou de geração em geração da família — até cair no colo do filho mais novo, Michael Corleone.
Essa é uma história que nos diz muito a respeito do controle de narrativas e faz isso a partir de como somos moldados a enxergar os desdobramentos da perspectiva dos Corleone. Em nenhum momento um dos lados se mostra coerente, mas a todo momento um precisa se provar dominante. Os interesses esdrúxulos das famílias influentes e o controle da máfia sobre a polícia e a imprensa é capaz também de moldar a política para obedecerem seus interesses e assim se perpetuarem à frente do comando das atividades ilegais. É nessa realidade em que caímos e somos apresentados à visão de uma excêntrica e poderosa família, cujos membros, por mais que relutem, estão destinados a lutar para manter o poder em suas mãos.
Mesmo com tantos personagens memoráveis e que roubam a cena o tempo inteiro, não demora muito para percebermos que a trama vai girar em torno do distinto Michael. Desde quando ele ainda parece um integrante desinteressado da família, a narrativa é capaz de nos deixar claro que, pelo seu caráter determinado, o caçula está prestes a alçar voos maiores, ganhando com isso nosso apego. Além disso, apesar de ser um filme com mais de 50 anos, esse clássico ainda consegue causar uma tensão sufocante em várias sequências e nos deixar apreensivos sobre o desenrolar das situações e o futuro de seus personagens. Pelo menos no meu caso foi assim, mesmo que em certas partes minha imersão não tenha sido tão profunda. Mas isso julgo ser por causa da distância temporal da obra. De qualquer maneira, a minha experiência passou longe de ser apática.
O filme, mesmo sendo um clássico e referência do cinema, não era nem um pouco do meu conhecimento. Preciso confessar que conhecia algumas coisas pequenas e já tinha ouvido a sua marcante trilha sonora, mas nada que tenha estragado essa minha primeira experiência com o longa. Ao final do filme, sinto que duas coisas me prenderam muito bem. A primeira é sua narrativa cativante, que nos mergulha numa trama intrincada e cheia de armadilhas, surpresas, saltos — no bom sentido — e, por que não, uma boa dose de drama. A segunda, e com certeza a mais impactante, é a perspicácia da direção que tem um ótimo apelo para a criação de cenas e sequências extremamente marcantes.
Antes de me aprofundar um pouco mais detalhadamente nessas cenas memoráveis, preciso saudar a direção e também a montagem no que diz respeito à dinâmica do filme. Ao longo de suas quase 3 horas de duração, em nenhum momento me senti cansado ou desinteressado pela trama, mesmo sendo um filme de uma outra época do cinema. Pelo contrário, quando o filme acabou queria saber mais e descobrir o que viria pela frente daquela nova formação de personagens que havia surgido ao final do longa. Estou ansioso para assistir a sua sequência que já tenho a noção de ser outra obra amplamente respaldada.
De volta ao filme em questão aqui, desde o princípio as cenas já demonstram um cuidado cauteloso, começando pelas escolhas precisas de enquadramento. Outro ponto que confere ao filme uma carga dramática excepcional é como a preparação para eventos marcantes narrativamente é realizada pela direção, por vezes elevando o suspense, prolongando a espera e escondendo a resposta, ou em outras, nos revelando pelas entrelinhas o que não demora a ficar óbvio. E como o filme sabe utilizar essas entrelinhas. Acho que um dos pontos cruciais dessa obra é que ele não precisa dizer muito para nos comunicar algo. Por isso, inclusive, que alguns saltos são feitos sem muito alarde ou receio. A direção confia na nossa inteligência e isso é uma recompensa fabulosa para o espectador.
Outra característica importante é que o choque visual não é usado exageradamente, mas em pequenas doses certeiras para causar o impacto necessário. Em vários momentos do filme me peguei tomando um susto com o desenrolar sorrateiro da situação. Se em alguns momentos o filme deixa subentendido alguns desdobramentos, em outros o impacto é direto e seco. Na primeira cena em que Michael é confrontado a realizar seu primeiro ato de violência em nome dos Corleone, conseguimos sentir a sua tensão e o perigo envolvido naquela ação. Mas é ali também que percebemos que seu destino está traçado ad aeternum.
Mais duas outras cenas merecem um apreço especial aqui. A primeira é uma cena de morte que traz uma humanidade para o personagem nos seus últimos momentos de vida. De repente aquela figura hostil e fechada se abre à uma simples brincadeira despreocupada e acaba justamente aí sendo atingido fatalmente pela intempérie da morte. Uma outra sequência que será inesquecível para mim é a do batizado. Nela é quando podemos ter a certeza que, literal e metaforicamente, Michael se torna o novo Padrinho, ascendendo ao lugar de seu pai por completo. Esse com toda certeza é o momento mais marcante do filme e que transmite muito bem o ponto de virada na forma como enxergamos aquele personagem que acompanhamos se desenvolver ao longo da história.
Ainda em relação aos personagens do filme, são atuações excepcionais de seus intérpretes que nos carregam ao longo de toda a duração. Além disso, a trilha sonora é magnífica e muito memorável, quiçá uma das mais marcantes do cinema. Une-se a isso uma fotografia consciente, com enquadramentos muito bem pensados e uma realização técnica como um todo à altura da trama que o filme tem para contar.
Esse é um clássico que, por várias razões, ainda se prova uma obra atemporal e excepcional como narrativa cinematográfica. Seus méritos ainda podem ser conferidos hoje em dia e o longa ainda pode ser apreciado sem muito esforço. Um excelente filme que me rendeu, sem dúvidas, uma boa experiência, depois que eu — com razão — finalmente resolvi dar uma chance a ele.
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