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Leme do Destino

Leme do Destino

2023 1h 13min Júlio Bressane 0
4
AVALIAÇÃO
Publicado em 04 de jan de 2026 às 18:00

Nossa Crítica

A beleza cruel do leme do destino pode simultaneamente ser bonita, feia e neutra, como afirma o próprio roteiro do filme durante uma conversa entre duas personagens. Assim como todos os santos que carregam suas cicatrizes, e com a consciência de que a esperança pede coragem, Bressane nos convida a nos deixar levar, imageticamente, pelas imprevisibilidades do amor e da vida.

A cena inicial, que é basicamente um plano-sequência dessas duas escritoras que escrevem apenas para si mesmas, conversando sobre amor, arte e linguagem, em minha opinião consegue ser a cena mais erótica do filme, apesar das belas cenas posteriores que comentarei em seguida. Temos duas mulheres que enxergam uma à outra como objeto de desejo, mas conversam sobre a relutância em ceder às próprias vontades, sobre não querer escrever sobre o que se sente e sobre ser a espectadora mais exigente de si mesma.

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Enquanto falam sobre freiras pudicas e a vontade reprimida envolta pela cultura religiosa, assistimos à culpa se transformar em apenas mais uma palavra, uma palavra que existe entre outras belas palavras de se falar e que dão prazer de ouvir.

O filme segue por uma caminhada com planos bastante abstratos. Sabemos que as mulheres vão para casa, mas o diretor constrói imagens que me fazem perguntar por quais caminhos elas irão seguir. A beleza da consumação do desejo rende belas sequências abstratas de objetos da casa que ganham vida, voam e navegam entre os corpos que se conhecem. Uma das cenas mais bonitas do filme é uma sequência muito simples de um papel pegando fogo. Afinal:

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“Amor é fogo que arde sem se ver;
é ferida que dói e não se sente;
é um contentamento descontente;
é dor que desatina sem doer.”

O amor queima, consome e nos muda. O filme segue afirmando os versos de Camões. O leme cruel nos leva às consequências de sermos fiéis às próprias vontades. O que acontece quando o papel é totalmente consumido pelo fogo? O que sobra quando uma das pessoas encontra outro objeto de desejo? Nada e tudo.

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O que nos resta é viver e assistir o amor virar outra coisa. Assim como Josie: o amarelo e o fogo dão lugar ao Rio de Janeiro chuvoso e cinza. Para a personagem que perde seu amor, o destino é cruel; mas, para alguém do outro lado do Rio, que ama dias chuvosos, o que existe é o prazer de aproveitar as águas que o tempo lhe ofereceu.

Júlio Bressane, em “Leme do Destino”, encapsula a vida e oferece ao espectador uma esperança meio desesperançosa: a de que a vida se transforma a cada esquina virada, a cada gole de cachaça e a cada pingo de chuva.

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Nota
4

Gessica Lima

Cena final

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