Nossa Crítica
Depois de pular 8 filmes do Universo Cinematográfico da Marvel, assisti ano passado a “Quarteto Fantástico: Primeiros Passos” e defini o mesmo como uma utilização preguiçosa da famosa fórmula de filmes de super-heróis da Marvel. Já este mais recente filme do Homem-Aranha posso ressaltar como um acerto na utilização dessa mesma clássica fórmula. Mesmo com alguns outros problemas inerentes a essa auto referenciação, o filme consegue, também através dela, nos conquistar emocionalmente, principalmente pela relação que já criamos com seus personagens.
Na trama acompanhamos, como de costume, Peter Parker lutando contra o crime em Nova York. O que muda aqui é que, após sua identidade ser revelada, pondo em risco seus entes queridos, um feitiço apagou sua lembrança da mente de todos que o conheciam. Assim, no anonimato, Peter tenta lidar com a solidão e também com novas mutações que seu DNA aracnídeo o proporcionam. Mesmo mantendo o disfarce, o Homem-Aranha se torna um grande aliado do principal órgão de defesa da cidade e quando uma estranha ameaça surge, Peter precisa confrontar suas escolhas de vida para lidar com aquilo.
Apesar de muitas vezes previsível, a trama flui muito bem e em nenhum momento do filme algo realmente me incomodou em relação a isso. Suas nuances de ritmo estão bem posicionadas e a construção da problemática segue um caminho coeso com o restante da narrativa. De fato, o que mais me conquistou no filme não são seus momentos de ação — que não são ruins — mas sim o desenvolvimento emocional e o apego que criamos com Peter. De qualquer maneira, o roteiro e a direção tem boas ideias para rechear a longa duração do filme com sequências alucinantes e caóticas.
A problemática aqui, além de curiosa e intrigante, mexe diretamente com os receios de Peter e por isso funciona tão bem. Mesmo que uma parte disso parta daquela forçadinha do roteiro, de fato o que acompanhamos é um belo desenvolvimento de personagem. Nada próximo a um drama, mas de fato adequado para um filme de ação e aventura. Os personagens estão bem estabelecidos, todos com certo espaço em cena e o protagonista passa também por uma jornada de autodesenvolvimento independente que condiz com as suas habilidades e histórico, guardando espaço ainda para uma série de referências e fan services que ajudam ainda mais o filme a funcionar.
Em relação a isso, inclusive, me chamou a atenção como o filme em si é ciente de sua existência. Em partes isso é um pouco excessivo, com cenas criadas exclusivamente para gerar momentos memoráveis de forma artificial. Mas por outro lado, essa consciência dos seus realizadores também propicia um timing cômico excelente, uma construção dramática ótima e sequências de ação realmente impactantes. Em determinado momento do filme me peguei pensando na construção de certos diálogos e como eles são tão expositivos e superficiais, mas logo então percebi o quanto isso é benéfico para a obra e como isso ajuda a expandir a alcançar seu público-alvo. Dessa forma, não é demérito do filme utilizar essa linguagem pois é justamente onde esse tipo de linguagem deve ser inserida e seu sucesso é notório justamente na enorme bilheteria do filme.
Sendo um filme do Homem-Aranha, personagem que já possui uma grande quantidade de fãs e também diversas histórias contadas sobre ele, inclusive nas últimas décadas, era difícil de se imaginar a nova maneira de consolidar esse novo Peter Parker de Tom Holland como um dos maiores acertos desse Universo Cinematográfico. Mas a decisão acertada de acompanharmos seu desenvolvimento desde um pouco mais jovem até finalmente alcançar a maturidade que acompanhamos nesse último filme é realmente uma jornada emocionalmente afetante. Conseguimos facilmente nos colocar em seu lugar e entender seus sentimentos depois de passar por todos os seus percalços. Antes de ver o filme li um comentário dizendo que “incrivelmente conseguiram fazer desse o melhor filme do Homem-Aranha de todos”. Não consigo precisar se essa frase também serve para mim, até porque não vi todos os filmes antigos, mas sem dúvidas é um acerto enorme nesse universo e dentre os filmes mais recentes de super-heróis também.
É interessante de se pensar também que fazer parte de algo maior, nesse caso aqui, traz desdobramentos benéficos para a trama. Sabemos que as ameaças não são do “nível dos Vingadores” e até por isso cabe mais espaço no filme para um desenvolvimento mais próximo ao que Peter experiencia em sua vida solitária. Se o personagem já teria carisma o suficiente para carregar uma narrativa por si próprio, com esses dramas recentes e com a nova problemática, o filme consegue criar um ambiente perfeito para o desenvolvimento de uma ótima história que, mesmo não sendo inteiramente surpreendente, causa o impacto necessário para conquistar os fãs e os aventureiros de plantão.
Com o carisma característico de Peter Parker e com um desenrolar instigante dos acontecimentos e personagens prévios, “Homem-Aranha: Um Novo Dia” consegue ser tudo que um filme do menino aranha poderia suscitar. Unido a isso, a excelente interligação com o universo ao qual faz parte também dá um toque de curiosidade interessante para apreciar essa obra.
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