Em Detalhes
“Mancha” é um terror social que brinca com metáforas para expor pertinentes críticas a estruturas da sociedade brasileira. Como não tenho conhecimento acerca da série como um todo, pretendo me ater a esse único e envolvente episódio que me fez refletir bastante sobre as questões abordadas e, como obra, me foi uma grata surpresa de ver uma produção nacional com tamanha qualidade narrativa.
Na trama conhecemos Dona Laura, uma senhora de classe alta do Rio de Janeiro que vive num apartamento com sua filha recém-nascida, e a empregada doméstica Mayara, que logo deixará esse emprego para ingressar num curso universitário. O convívio que no início parece ser cordial acaba se mostrando uma relação tóxica e possessiva.
Já na premissa a produção coloca o dedo na ferida quando expõe a obsessão de Laura em tentar manter Mayara sob seu comando. O vazio da casa simbolizando o vazio da personagem expõe ainda a não aceitação por parte dela de ver sua empregada doméstica ascender para uma vida mais digna. Enquanto isso, a série utiliza uma trilha sonora com músicas clássicas para representar a melancolia de Dona Lauria enquanto, em contraste, expõe músicas contemporâneas e mais alegres para acompanhar o desenrolar da vida de Mayara. Músicas essas que ecoam pelos cômodos da casa, exaltando ainda mais o incômodo da patroa.
Em relação aos contextos sociais abordados, esses são muitos e se entrelaçam nos subtextos da trama. A principal questão é o racismo velado que pode ser observado na patroa que não consegue aceitar perder sua serviçal, carregando os mesmos preconceitos de sua família que sempre teve na família de Mayara os braços do trabalho em sua casa. Tudo isso fica bem explicitado no texto. Além disso, com o elemento de virada da trama, a negação de Dona Laura expõe ainda mais seu sentimento de culpa não apenas pelo que acabou de ocorrer, mas por tudo o que aconteceu no passado da família e de maneira mais geral, como se pensar na sociedade brasileira. Sociedade essa que ainda não está acostumada a ver pessoas negras em lugares de destaque ou mesmo em lugares que anteriormente eram majoritariamente ocupados por brancos. Esse preconceito arraigado na sociedade diz respeito também às classes mais pobres que começaram a se destacar com políticas públicas recentes, a partir do século XXI. A direção traz rimas visuais com objetos de cena que conseguem transmitir tudo isso de forma clara, mas não explicita o tempo todo. Os detalhes que são responsáveis por dar peso a história e nos impactar ainda mais com uma direção que torna o contraste de visões das protagonistas visível aos nossos olhos nos deixa vidrados na tela com uma construção de um suspense psicológico cativante.
Aliando boas ideias narrativas, uma temática pertinente e uma abordagem inteligente, esse episódio consegue transmitir sua mensagem sem precisar se explicar demais. Utilizando em sua maior parte de uma linguagem audiovisual mais sofisticada e detalhista, os planos e as cenas sempre tem algo a comunicar mesmo que em um primeiro momento não percebamos. Dessa maneira, acredito que essa é uma ótima crítica social que consegue entreter e nos fazer refletir, passando longe de ser uma história qualquer e se provando mais real do que gostaríamos que ela fosse.
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