Nossa Crítica
Mais recente filme do veterano Steven Spielberg, “Dia D” é uma aventura mais pretensiosa do que realmente entrega, mas conta com acertos o suficiente para, de todo modo, não ser cansativa. Para resumir, é um filme que tenta se vender como uma super produção que passaria na Tela Quente, mas não passa de uma aventurinha da Sessão da Tarde.
Na trama acompanhamos dois núcleos, a princípio. Uma jornalista começa a desenvolver uma estranha habilidade de entrar na mente das pessoas ao seu redor e também a prever o futuro. Já um jovem funcionário de uma empresa de tecnologia se engaja num plano ousado de roubar informações confidenciais que ele, e mais um grupo de funcionários rebeldes, acreditam ser do interesse mundial. Misteriosamente — ou por poderes psíquicos — os dois se encontram e seguem nessa jornada de tornar aquilo tão sigiloso público num grande dia da revelação.
Vamos primeiro aos pontos positivos. A direção sem dúvidas é mais do que consagrada. Spielberg com certeza ainda sabe contar uma história utilizando as lentes de uma câmera com maestria. Porém, que história é essa que ele pretende contar? Essa é mais uma trama que se aproxima dos temas que o diretor americano parece gostar mais, mas ao mesmo tempo não se aprofunda mais do que uma poça de água da chuva. O que começa com um intrincada e misteriosa história vai se desenvolvendo para um longa repleto de perseguições, momentos de corre corre, mas sem qualquer desenvolvimento para além disso, e ainda se escora em coincidências e auxílios do roteiro.
Eu tinha dito que ia falar das partes boas, não é? Enfim, já me perdi. A trilha sonora é excelente, com o também veterano John Williams demonstrando sua maestria mais uma vez. Como já citei, a direção consegue carregar a trama sem muitos percalços, mesmo que ela não tenha nada muito interessante a nos contar. Mesmo assim, a dinâmica da narrativa é fluida o suficiente para nunca chegar a ser cansativa. Mesmo assim, é um pouco decepcionante vê-la chegar aonde chega. É tudo muito singelo e sem muito esforço por parte dos personagens. A estrada parece já estar traçada ali e todos apenas seguem os passos já bem definidos.
Me perdi de novo nesse misto de elogios e críticas. Eu não consigo dizer que não gostei do filme. Ele me entreteve e ocupou bem meu tempo com suas mais de 2 horas de duração, mas ao mesmo tempo eu sinto que ele poderia ir bem mais além disso. Ele apenas pincela alguns questionamentos e discussões filosóficas, mas para por aí mesmo. Nada é levado tão a fundo ou discutido com tanto afinco. Apenas são levantadas hipóteses e até que boas questões, mas tudo fica em segundo plano, pois o que parece ser mais importante é a perseguição de uma dúzia de carros que vai de algum lugar para não sei onde. É isso que o filme parece o tempo inteiro, os personagens estão apenas dirigindo de um lado para o outro e depois que se encontram continuam fazendo a mesma coisa.
No meio disso tudo, há sim uma coisa que torna a experiência um pouco mais interessante, a nossa dúvida: e se isso acontecesse na vida real, como seria? Essa interrogação nos faz pensar sobre aquilo de uma forma mais crível e essa parte da revelação em si é realmente interessante, por mais que seja também espetacularizada demais pelo filme. É como eu falei no início, há uma pompa enorme para tudo aqui. O filme se leva a sério demais em situações não tão emocionantes quanto querem parecer.
O que realmente mais me incomodou foi a preguiça do roteiro em desenvolver uma discussão mais séria sobre os modos como a humanidade se portaria com uma descoberta como a que vemos aqui. Os modos como a imprensa agiria, os governos, as empresas. É tudo tão simplificado que perde até um pouco do único peso que realmente a narrativa tem. Além disso, os perigos são artificiais demais e do mesmo jeito que surgem, são extintos. É exatamente esse o termo: artificial. A problemática parece bem artificial e a forma como a narrativa se estrutura também. Há uma construção de suspense muito boa, fruto de uma direção que sabe trabalhar com o mistério, mas quando as peças vão finalmente se encaixando e principalmente pela forma que se encaixam, percebemos que talvez não vamos ver nada tão espetacular como imaginávamos.
Mesmo com tudo isso, Emily Blunt consegue carregar o filme até que bem com sua personagem desastrada e passando por uma fase esquisita de descoberta e incerteza. É possível perceber o desgaste emocional por não saber o que está acontecendo com ela mesma e enfim descobrir tudo. Os demais personagens não fazem nada que fuja das 3 primeiras definições dos seus arquétipos.
Ao final, mesmo acompanhando uma trama de mistério que parece não fazer esforço nenhum para se resolver, ainda assim a sensação que eu tive não foi de tempo desperdiçado. Talvez pelos elementos técnicos mais do que pela narrativa, mas não posso negar que não desgostei tanto quanto eu poderia.
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