Nossa Crítica
Após descobrir a existência desse filme e sua boa repercussão, decidi ir ao cinema assistir sem pesquisar nada a respeito dele. Com isso, tive uma boa experiência e consegui entender sua boa aceitação popular, mesmo que as obras que o inspiram sejam, a meu ver, bem superiores. A seguir vou desenvolver o porquê acho isso e também detalhar seus méritos e equívocos.
Numa nave espacial a milhares de quilômetros da Terra, um tripulante acorda e percebe que está sozinho no espaço. Desorientado e sofrendo com a falta de memória, Grace tenta descobrir quem é e o que está fazendo vagando no espaço. Após finalmente entender sua missão de descobrir o que está causando a morte de estrelas no universo, ele precisa obter sozinho uma solução para esse problema — ao menos é o que ele imagina a princípio.
Tecnicamente exuberante, esse filme não deixa muito a desejar em comparação a outros filmes do gênero no que diz respeito às características de fotografia, arte e som. Porém, o longa abdica de um maior desenvolvimento da ficção científica no seu roteiro para focar no desenvolvimento de personagem e numa relação de companheirismo que já nos deparamos por aí em inúmeras produções. De qualquer modo, esse relacionamento carismático que vai ganhando contornos cativantes é mais do que suficiente para garantir uma experiência satisfatória e foi, provavelmente, o que tornou essa obra grandemente adorada pelo público.
Mesmo que de forma contida, o filme explora um suspense envolvente. São cenas esporádicas, mas que contam com uma construção de atmosfera exemplar. Enquanto o mistério ainda paira no ar, a sensação de claustrofobia naquela nave espacial é explorada com muito apreço pela direção que consegue nos transmitir uma sensação de isolamento e perigo iminente, principalmente em relação ao desconhecido. Aos poucos essa faceta do filme é trocada por uma outra atmosfera mais casual e agradável, mas isso não invalida as boas cenas que foram criadas ao longo do caminho. De uma forma bem mais extravagante — e com bem mais orçamento — esse filme faz um pouco do que “Oxigênio”, de Alexandre Aja, fez em 2021.
Complementando o que ressaltei anteriormente, o filme foca muito mais na construção de uma narrativa centrada no seu protagonista do que realmente numa trama intergaláctica complexa e cheia de conceitos científicos. Pelo contrário, a ciência aqui trabalha em favor do roteiro, com problemas e soluções surgindo em momentos precisos para garantir avanços e plot twists na trama. Isso não é de todo problemático, mas afasta um pouco daquela sensação de veracidade que produções do gênero costumam ter. Talvez seja esse o motivo de esse filme não me tocar tanto quanto “Perdido em Marte”, por exemplo. Se lá somos conquistados também pelo carisma de seu protagonista, há porém um quê de imprevisibilidade e complexidade cativantes que nos prende e inquieta a todo o instante, o que aqui não se mantém homogêneo durante toda a narrativa.
Por outro lado, a relação entre os dois personagens principais também acaba sendo uma repetição de um outro clichê que costumamos acompanhar em filmes de aventura: o desenvolvimento de uma amizade entre um humano e um ser fantástico, ao bom estilo de “Como Treinar o Seu Dragão”. Essa fórmula de relação de interdependência entre uma pessoa e um ser inteligente, porém, ingênuo em relação aos trejeitos humanos, é utilizada com maestria nessa obra e é de longe o que mais nos conecta ao filme. A afeição que surge do medo e se transforma em companheirismo é emocionante e nos tira também boas risadas pelo caminho.
Outra coisa me deixou um pouco curioso a respeito da trama. Apesar de se focar principalmente no desenvolvimento do Doutor Grace, sua personalidade anterior à narrativa presente se mostra bastante simplória, sendo possível descrevê-la em poucas linhas. Mesmo sempre carismático, as descobertas que vamos acompanhando junto ao personagem acabam por não se provarem de fato tão interessantes quanto o dia a dia que acompanhamos no espaço. De qualquer forma, a esse ponto do longa já estamos totalmente engajados na história e seu carisma bem provavelmente já nos conquistou.
Surfando no que faz “A Chegada” especial, a construção de uma nova linguagem de comunicação entre os dois diferentes personagens também é um ponto cativante, por mais que isso seja bem simplificado pela narrativa ao longo do filme. “Devoradores de Estrelas” constrói uma relação e uma comunicação baseada na empatia e amizade genuína que conquista e emociona, mas opta por nos esclarecer e traduzir didaticamente, não se arriscando em apenas nos deixar sentir e deduzir.
Esse é um filme empolgante, mas que por algumas decisões que priorizam simplificar a narrativa em favor de uma experiência mais emotiva e convencional acabaram por colocá-lo aquém de outros filmes que inclusive o inspiram, tornando-o uma experiência quase que repetida. É aquele famoso filme que você sai com a sensação de já ter visto ele em algum lugar, mesmo sendo sua primeira experiência. De todo modo, essa salada de fragmentos ainda sim consegue ser divertida.
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