Nossa Crítica
Em busca de um filme nacional para assistir com meus pais, me deparei em cartaz com esse filme aqui, que eu pouca coisa sabia a seu respeito. Mesmo com uma sinopse meio generalista e confusa, confiei que o filme poderia nos garantir ao menos um entretenimento bacana e uma boa tarde no cinema. O que eu não poderia estar mais correto, sendo uma ótima experiência para todos nós e mais um belo exemplar nacional que trilha um caminho arriscado, mas que consegue trazer sua mensagem à tona com perspicácia pelo seu diretor.
Na trama conhecemos Murilo, um músico que acaba se envolvendo com uma moça misteriosa na cidade de Cuiabá. Enquanto isso, também conhecemos uma policial que acabou de perder seu filho e busca por vingança. Ainda no meio disso tudo, um advogado que perdeu sua mulher arma uma plano arriscado para se vingar do bandido responsável pela morte dela. Em meio a esse emaranhado violento, todos esses caminhos se entrelaçam numa representação cruel da violenta sociedade brasileira atual.
Logo de cara o filme começa com um ar novelesco que achei que se manteria por toda a duração, o que poderia fazer da narrativa uma mistura indigesta e sem muito desenvolvimento para nenhum dos personagens envolvidos, devido a grande quantidade de subtramas. Mas logo que essas subtramas se encaixam isso muda completamente e todas as peças começam a se conectar de uma forma até que muito satisfatória.
Outro ponto fundamental e que traz uma personalidade ao filme é sua narrativa não linear. Julgo que o que faz isso funcionar muito bem é que há uma cabeça pensando por trás de toda a trama e construindo essas conexões de forma minuciosa. Roteiro, direção e montagem do Bruno Bini dão uma coesão enorme para a obra, principalmente por essa sua narrativa não linear. É muito interessante ver todos os pontos confusos serem respondidos ao longo da trama, sem pressa e sem alarde, apenas no tempo correto para nos causar aquela sensação de “agora tudo faz sentido”.
Mergulhando no que de fato o filme quer nos contar, apesar da ação ser empolgante e trazer uma certa catarse momentânea, a sensação final que o filme traz consegue demonstrar as dores que a violência é capaz de causar na sociedade brasileira e as suas diversas formas de existir. Apesar de pequenas piadas no texto e situações tragicamente cômicas, a narrativa não se perde nessa leveza, trazendo à tona o tempo todo a violência em suas facetas mais impactantes. Vingança, desigualdade, abuso psicológico, tudo isso se mostra destrutivo à vida, principalmente em sociedade, o que o filme retrata muito bem. O sentimento final melancólico contribui para a mensagem do filme, então esse gosto amargo que a obra nos passa é proposital e até que bem desenvolvido para que a empolgação superficial que a ação nos traz não se sobreponha ao que realmente a obra nos quer transmitir.
Apesar de algumas fragilidades, o longa consegue se consolidar ao fim, conservando seus esforços na defesa e na valorização da vida, mesmo que ele utilize de meios, à primeira vista, controversos para isso. Como mencionei, a empolgação que a ação do filme nos passa é uma faceta muito explorada pela obra e traz uma contradição intrínseca. Ao mesmo tempo em que sua realização técnica é muito boa e nos conduz para uma sensação efêmera específica, sua condução e impacto narrativo a longo prazo se provam mais importantes para a construção da mensagem da obra.
Com uma conclusão desgastante, desgostosa, mas até que bem emocionante — através de pequenas singelezas narrativas plantadas por toda a duração — a narrativa consegue fazer uma viagem em si mesma com várias voltas e reencontros, sempre trazendo cada vez mais respostas para a história central, unindo as pontas soltas que pareciam desconexas e trazendo uma moral consciente e bastante necessária num Brasil que se mostra ainda tão violento e destrutivo com sua própria gente.
Essa, com certeza, foi uma grata surpresa que conseguiu me fazer derramar lágrimas e sorrisos de forma equilibrada, o que eu de fato não esperava de início — até duvidava. O que poderia facilmente se perder em uma bagunça narrativa conseguiu ao fim ser facilmente palatável ao público e transmitir sua impactante história de forma curiosa, inventiva e surpreendentemente bastante prática.
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