Nossa Crítica
Temos aqui uma tentativa de remake de “Anaconda” de 1997 que tenta se auto debochar mas falha miseravelmente até nisso. Se o seu predecessor já não se mostrava tão atraente, ao menos guardava alguns méritos por certo nível de originalidade, mas esse aqui nem sequer consegue se sustentar para além de clichês e no que decide ser inventivo, era melhor que tivesse se mantido clichê mesmo.
Na trama temos um grupo de amigos que decidem reacender a paixão de infância pelo cinema e viajam para a Floresta Amazônica para filmar um remake do “clássico Anaconda”. Mesmo enferrujados no hábito cinematográfico, o pseudo filme parece se desenrolar, porém é quando perigos inimagináveis os alcançam, a Anaconda de verdade começa a persegui-los e além dela o roteiro também começa a ruir — tanto na diegese quanto nas mãos do diretor Tom Gormican.
A metalinguagem é um artifício que se bem usado demonstra uma inteligência e uma perspicácia louváveis por parte de um roteiro cinematográfico, entretanto, se mal utilizada — como é o caso aqui — acaba demonstrando ainda mais as fragilidades de uma obra que buscava se autopromover. Ao tentar retratar o fazer fílmico, o roteiro de “Anaconda” acaba demonstrando apenas uma referência juvenil à sua própria produção e aos elementos mais vagos ligados ao cinema a que pertence. Assim, a obra apenas demonstra seu pouco ou nenhum esforço para usar de maneira minimamente coerente de clichês, fan services e da própria mitologia que poderia citar. Pesquisando sobre a obra descubro que o diretor desse longa é também o de “O Peso do Talento”, um filme que teve até uma boa destreza para brincar com esses conceitos e conseguiu se apresentar como uma diversão bem inteligente. Sinto dizer que não foi o caso com “Anaconda”.
E esse não é nem o pior problema do roteiro por aqui. A obra está lotada de furos, atalhos narrativos e conveniências que chegam a nos indignar. Um plot twist, por exemplo, é legal quando nós temos a capacidade de participar da descoberta, prever ou imaginar suas influências na trama, mas quando é empregado de uma maneira artificial ou até mesmo trapaceira como é o caso aqui, apenas demonstra a falta de criatividade que o roteiro tem. Além disso, no caso específico, ele logo é esquecido até mesmo pelo filme, mostrando que a sua importância era nula no final das contas. Assim como é apresentado sem nexo ou ligação com a trama principal, a subtrama que tenta carregar minimamente uma sugestiva mensagem acaba sendo esquecida, desprezada e ignorada pelo próprio filme. Um lapso de ideia que apareceu e sumiu com a mesma facilidade na história.
A narrativa tenta criar uma certa jornada de redescoberta com um draminha do passado retornando para a vida dos personagens, mas são todos tão unidimensionais e rasos que os seus backgrounds não passam apenas de um desenvolvimento simplório e imaturo. Não há como criar uma conexão que seja mais intrínseca com nenhum deles e a tentativa de criar uma autorreferência chega a ser infantil de tão ingênua. Até mesmo o carisma, geralmente presente por cerne em seus intérpretes, aqui é perdido no meio de uma comédia idiota e estupidamente juvenil. Digo isso também do nosso representante brasileiro Selton Mello, que foi a única coisa do filme que transmitiu certa autenticidade na obra, mesmo seu personagem sendo relegado a um louco fora de si.
Veja que eu falei isso tudo e nem cheguei a me aprofundar na comédia do filme, gênero ao qual pertence — ou pretendia pertencer. Minha nossa, não sei se fui só eu, mas nada aqui me tirou nenhuma risada genuína. Talvez tenha chegado ao meu limite esse tipo de humor americano boboca que nos foi empurrado nas mais diversas comédias pastelão da Sessão da Tarde com Adam Sandler e sua turma, mas aqui nem nesse nível parecem chegar. São situações e piadas tão constrangedoras que não servem nem para gerar vergonha alheia e o pouco que poderia ser aproveitado como novidade pelo filme é descartado de forma inexplicável. Me impressiona ainda o fato de o filme ter classificação indicativa para maiores de 14 porque nada justifica isso além de um ou outro palavrão jogado. Mesmo a violência gráfica é tão fake que não consegue chocar ninguém. O que mais parece o tempo todo é que o filme é tão bobalhão que foi feito para crianças.
Saí de casa para assistir um filme qualquer que me fizesse passar um tempinho sem pensar muito e sem me preocupar com o resto do mundo, somente uma diversão despretensiosa e fugaz. Mas isso aqui extrapolou demais o meu objetivo de não usar o cérebro. É um humor tão besta e simplório envolvidos por uma trama que a partir da metade do filme não sabe nem o que contar e ainda se recusa a usar o pouco de atrativos que poderiam distinguir um pouquinho a obra que só demonstram uma total preguiça por parte de seus realizadores. Jogar a sequência final para dentro de um estúdio é pavoroso após o próprio filme, em algum lampejo de cuidado, apresentar um ambiente tão vivo e atrativo como a Amazônia. Por mais que usada de maneira trapaceira e oportunista, como geralmente grandes filmes estrangeiros fazem, ao menos tinha em mãos um cenário interessante a se explorar, mas em todas as áreas, não parece haver qualquer esforço para criar uma obra decente.
Se não dou uma nota ainda pior para esse filme é pela mísera participação de Selton Mello na obra que ainda dá um resquício de humor ao longa, mesmo sua participação sendo mínima e mal aproveitada. Se eu fui buscando uma dose de diversão, vendo esse filme eu só acabei me irritando ao notar a falta de qualquer capricho para empolgar, cativar ou entreter dessa obra.
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