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A Odisseia

A Odisseia

2026 2h 52min Christopher Nolan 0
3.5
AVALIAÇÃO
Publicado em 16 de jul de 2026 às 23:59
Apoio:Cinesercla

Nossa Crítica

Sem dúvidas temos aqui uma obra grandiosa, exemplar do que se tornou a filmografia de Christopher Nolan. Apesar de um alto valor de produção e um esforço homérico na realização dessa obra em IMAX — algo tão ressaltado na divulgação — adaptar uma obra tão grande e complexa quanto A Odisseia em um único filme, mesmo com quase 3 horas de duração, parece ter sido um tanto quanto presunçoso.

“A Odisseia”, como o título já deixa óbvio, adapta o clássico poema homônimo de Homero para as telonas. Na trama acompanhamos a volta para casa de Odisseu depois da vitória sobre a cidade de Tróia. Após 10 anos de guerra, o que parecia ser uma merecida volta para casa se torna uma jornada épica e dolorosa para esse herói que desafia pessoas, deuses e monstros. Ao mesmo tempo, em sua terra, seu filho Telêmaco aguarda ansiosamente a volta do pai para enfim conhecê-lo e também para cessar a balbúrdia que os nobres do seu reino estabeleceram em seu palácio. Para além de uma jornada épica de retorno, “A Odisseia” narra os traumas de uma guerra de diferentes perspectivas, tentando expor como a harmonia e a humanidade daquele povo foi completamente ceifada.

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Obviamente a história é bem mais complexa que isso e curiosamente o maior spoiler que alguém pode tomar para ver esse filme é conhecer a obra original porque, por bem ou mal, Nolan trouxe para as telonas uma adaptação bastante fiel ao que é narrado no poema grego. Ser fiel não é necessariamente uma virtude do filme, pois uma adaptação sempre consiste em uma série de escolhas de como transpor aquele conteúdo literário para uma produção audiovisual. E é aí que eu acho que o filme de Nolan perde boas oportunidades. Apesar de ser um épico maravilhoso visualmente e com belíssimas sequências de ação e combate, a história não consegue adentrar um lugar mais profundo e emocional quanto poderia e isso provavelmente se deve ao fato de, curiosamente, não termos tanto tempo para acompanhar aqueles personagens.

Como tem tanta, mas tanta coisa para acontecer, sobra pouco tempo para realmente nos conectarmos àquelas pessoas para além do que já inferimos dos personagens mitológicos clássicos. O potencial que uma obra cinematográfica traz para contar uma história já tão conhecida é justamente trazer um pouco de humanidade para aqueles seres e nos conectar às suas angústias, desejos e dores. Isso mesmo sem tirar o caráter ficcional e fantástico da obra. De longe isso foi o que mais me incomodou, mesmo com um esforço final de tentar trazer uma conexão, tudo pareceu muito simplório e esporádico ao longo do restante da duração. E sim, havia muito espaço para um desenvolvimento mais profundo daquela situação tão extrema que a família de Odisseu estava passando, com a possibilidade ainda mais incrível de conectá-la às mesmas questões problemáticas de nosso tempo.

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Do ponto de vista técnico, essa obra é absolutamente excepcional, seja pelo preciosismo de Nolan, seja pela acurácia de todos os demais profissionais envolvidos. Trilha sonora, fotografia, direção de arte, tudo trabalha muito bem em conjunto e ajudam a construir — ou reconstruir — aquele mundo épico e perdido no tempo e na imaginação de cada leitor. Assim como “Avatar” e outras obras do gênero, como conto épico de fantasia, essa obra não deve nada e consegue realmente maravilhar nossos sentidos por toda sua longa duração, sem nunca cansar ou perder seu tom epopeico.

Por outro lado, a narrativa mostra-se apressada em tentar contar tanto em tão pouco tempo. Mesmo com algumas elipses e facilitações, a quantidade de situações que nos são apresentadas acaba por entorpecer nossos sentidos, mas sem nunca pela carga dramática que o filme tenta propor. Até mesmo a ação, tirando uma ou outra cena — a exemplo da invasão de Tróia — tornou-se para mim cansativa ao longo do tempo. O meu maior interesse já não estava mais em acompanhar como Odisseu poderia ser capaz de atravessar mais uma provação, mas sim em como finalmente se daria o reencontro com sua família. Nesse sentido, acho que talvez aí o filme poderia não ser mais tão fiel ao texto original, dando mais espaço para um desenvolvimento maior para seus personagens e contemplando seus ótimos atores com uma possibilidade maior de trazer um frescor de novidade para o enredo.

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De fato há no final uma tentativa de contextualização dos fatos e uma discussão um pouco menos rasa acerca dos acontecimentos passados, mas de um ponto de vista filosófico e em comparação com a profundidade que a obra poderia alcançar, é tudo muito simplório e expositivo. Algo que faltou durante toda a duração e só surgiu em momentos singelos é finalmente jogado na sua cara. Além de perder uma oportunidade ótima de trazer luz às perspectivas atuais dos temas abordados, o filme se constrói sobre uma camada muito fina de simbolismos e emoções. É quase que um documentário épico sobre esse texto de mais de 2 mil anos. E olha que muitos documentários tem uma carga dramática bem maior.

De qualquer forma, não nego que me diverti assistindo a esse filme e a sua grande duração pareceu pequena, tanto porque a construção épica daquele universo mitológico se mostrou excepcional, quanto porque a narrativa flui de forma bem dinâmica — ou apressada, como queira. Essa mais nova obra de Nolan poderia facilmente ser uma minissérie a exemplo de “Chernobyl” ou até mesmo uma trilogia de filmes, mas essa investida numa produção única, ainda que aquém de uma profundidade satisfatória, se mostra um espetáculo audiovisual a altura do que se poderia imaginar.

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Nota
3.5

Gabriel Santana

Cena final

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